Planeta Islândia

Paisagens vulcânicas, piscinas termais, luzes da aurora boreal (e muito pouca gente) fazem do país nórdico um lugar de outro mundo

“Como foi que você teve essa ideia de ir para a… Islândia?”, a pergunta é quase sempre inevitável, e quase sempre ela soa “por que você vai gastar essa grana toda pra ir a um lugar tão longe, tão sem nada conhecido, o que é que tem lá pra ver?” E a verdade é que você faz as malas cheias de roupas de frio sem saber direito a razão: vai ver foi algo que lhe chamou a atenção em uma reportagem sobre os efeitos da crise financeira de 2008 no país; vai ver foi um time-lapse da aurora boreal que, da tela do computador, provocou uma faísca numa aborrecida segunda-feira de manhã…

Claro que algumas coisas são sabidas. Manchinha no mapa-múndi tris-cando o Círculo Polar Ártico, a Islândia é um pouco maior que Portugal, só que com 30 vezes menos gente – 320 mil pessoas apenas. Em quase tudo, um lugar jovem: ilha vulcânica, emergiu do mar há “recentes” 20 milhões de anos, quando já fazia mais que o dobro disso que os atuais continentes tinham se formado; permaneceu desabitada até o século 9, quando os vikings chegaram por lá. Primeiríssimo mundo, hoje é, segundo o Fórum Econômico Mundial, país que melhor recebe os turistas.

Está certa a percepção de alguém que vá achar que esta combinação de eventos resulta num mundo totalmente diferente. E, assim, aos pedaços, a explicação (insuficiente) se desenha, até que, num frio outubro qualquer, a pessoa desembarca no aeroporto de Keflavík.

A ideia é alugar um 4×4 e pegar a Ring Road, a estrada que contorna o país num círculo. são 1 300 quilômetros de pista única em cada sentido, mas bem pavimentada e sinalizada. Um estudo mais detido do percurso teria sido recomendável antes, mas dá para gastar alguns dias perambulando por Reykjavík fazendo planos. A capital é a única metrópole à vista – se é que uma cidade com 170 mil habitantes pode ser chamada assim. Não tem arranha-céus, não tem metrô, não tem lojas de grife internacional. Outro mundo, certeza.

O “skyline” é formado por casinhas baixas, coloridas, que parecem ter se expandido morro abaixo, em torno da catedral luterana inspirada no fluxo de lava escorrendo (digna da Asgard que se vê no Thor do cinema). Chama-se Hallgrímskirkja, e o projeto pessoal de guardar o nome de cada coisa nessa língua quase alienígena vai-se mostrando destinado ao fracasso (sem pânico: os locais falam inglês também). À frente da igreja está a estátua de Leif Ericson, o islandês viking que pisou na América quatro séculos e meio antes de Cristóvão Colombo, coitado, achar que estava desembarcando nas Índias.

A noite em reykjavík também promete agitos, e os bares trancam o tempo chuvisquento e a escuridão do alto inverno do lado de fora. Dizem que vez em quando dá para cruzar com Björk na balada. Não sei os caras do Sigur Rós.

RESORT NA LUA

Da cidade é um pulo até o Blue Lagoon, spa erguido em torno de uma piscina natural geotérmica, cuja água azul-leitosa, cheia da esfoliante sílica, contrasta impressionante com a paisagem ao redor: quilômetros de rocha basáltica negra coberta de musgo ralo. É como um resort na lua devia ser. E de outra órbita parece também a sensação de mergulhar numa água que sai da terra a 37 oC em meio à fumaceira do vapor que se condensa em contato com uma temperatura externa em torno de 5 oC. Bebericando, dá para passar um dia inteiro assim, e, com a cara vermelha de tanta sílica, voltar para ao planeta Terra revigorado – ainda que sensivelmente mais pobre (não é barato, mas há outras piscinas termais na Islândia mais em conta). Na volta, sorte grande: um pôr do sol matador, colocando fogo no céu do porto de Hafnarfjördur.

Ainda perto da capital, vale a esticada ao chamado Golden Circle, rota que leva à Gullfoss, a primeira de muitas cachoeiras majestosas do país, e, no vale de Haukadalur, à mãe de todos os geisêres – a palavra Geysir (“jorrar” em islandês), que é usada para designar todos os buracos ferventes mundo afora, é o nome próprio de um deles por ali. A vedete do lugar é Strokkur, que expele água quente a cada 4-5 minutos a alturas que chegam a 30 metros. Depois de uma caminhada na área, fica claro porque a humanidade botou o inferno debaixo da terra e fez o diabo cheirar a enxofre.

A mais simbólica de todas as atrações no Golden Circle é o Parque Nacional Þingvellir, vale onde acontecia a assembleia viking, considerada o primeiro parlamento da história, e local da independência islandesa, em 1944. Mas o mais assombroso no lugar é a Almannagjá – a fronteira geológica entre a Europa e a América. Ali se erguem em dois paredões, literalmente brotando do chão, as placas tectônicas dos dois continentes, separadas por alguns metros apenas – dá até para, atravessando uma pontezinha gaiata, ir de um continente a outro em alguns segundos. A cada ano, essas placas se afastam 2,5 centímetros. Significa: pouco a pouco, a Islândia está sendo rasgada ao meio. Não admira que os vulcões ali estejam frequentemente zangados.

O CENTRO DA TERRA

A coisa fica realmente boa quando se pega a estrada pra valer. Na alta temporada, em julho e agosto, o país se enche principalmente de europeus, americanos e canadenses – todos a apenas umas horinhas de voo de montar a barraca sob o sol da meia-noite, nos vários campings ao longo da Ring Gold. Mas em outubro, com o início do frio, os turistas já começam a rarear. Junte isso com a acanhadíssima população e o resultado, para o viajante, é uma sucessão de paisagens espetaculares, com mais ovelhas do que seres humanos avistados no caminho. E isso, dá para garantir, é uma experiência que vale cada coroa islandesa gasta.

Partindo de Reykjavík e seguindo a rota em sentido horário, a primeira parada está a uns 200 quilômetros adiante, a oeste. O destino é o Parque Nacional Snæfellsjökull, que abriga e leva o nome do vulcão – hoje extin-to – que Julio Verne escolheu para ser a entrada do mundo perdido de Viagem ao Centro da Terra. Para chegar lá, é preciso pegar estradas secundárias mais estreitas, pavimentadas com pedrinhas – mas nada que preocupe, são bem razoáveis. Dentro do parque, claro, não há ocupação nenhuma. e como no romance de Verne, fica claro que uma jornada Islândia adentro se assemelha a voltar a um passado pré-histórico em que a natureza bruta combina com uma desolação que, para ser perfeita, quase não admite gente.

Entre escarpas mesclando o verde a múltiplas cores terrosas, que vão do amarelo ao ocre, e o litoral de areias inteiramente negras, a viagem se dá por planícies cobertas de rocha vulcânica e colorida, embora sofrida, vegetação baixa. No horizonte, picos nevados e, mais próximos, crateras alquebradas de vulcões mortos, igrejinhas de cinema, faróis inativos. Onipresente de tão grande, Snæfellsjökull é difícil até de divisar – seja na extensão, que se perde depois da curva, seja na altura, perdida em nuvens espessas. Nas baías de Djúpalónssadur e Dritvik, a gente vê na praia e no mar rochas altas onde, segundo os islandeses, os elfos se escondem; se a preferência for por trolls, a dica é explorar as inúmeras cavernas (Julio Verne nunca esteve na Islândia, mas J. R. R. Tolkien foi conferir in loco o que podia usar em Senhor dos Anéis). Apesar do vento gelado que sopra do mar, o frio é bastante tolerável e dá para fazer umas trilhas sobre os penhascos. A infra-estrutura de apoio é de primeira – só não esqueça de levar comida e água porque não se vai achar nenhum ambulante por ali.

A etapa que leva ao norte do país traz outras paisagens: ganha-se altitude e perde-se temperatura ao adentrar as montanhas nevadas. Do alto das serras, vê-se à distância grandes fazendas com pastos verdes, muitos deles coalhados de sacos brancos de feno que, dali, mais parecem marshmallows. À beira da estrada, ovelhas (incontáveis), cabras e cavalos com lindas crinas volumosas andam livres – daí a velocidade máxima, atenção, ser de 90 km/h.

Com 17 mil habitantes, Akureyri é a segunda maior cidade da Islândia, de onde se pode programar passeios de barco para observar baleias, praticar esqui ou fazer trekking. Se a ideia for fazer algo assim, dá para usar a cidade como base; se não, o ideal é continuar rodando montanha acima até chegar a outra espetaculosa região – a do raso mas gigantesco Lago Mývatn, formado por uma massiva erupção há coisa de 2 mil anos. Aqui, tem vulcão vivinho da silva. O Krafla, uma caldeira de dez quilômetros de extensão, está rodeado de lagos termais e buracos ferventes. Numa elevação, aonde se chega com neve até os joelhos e vento gelado zunindo nos ouvidos, está a cratera Víti (“inferno”), hoje com seus 150 metros de diâmetro cheios de água esmeralda – uma cor inesperada em meio a uma paisagem inteiramente branca.

Nessa altitude, o caminho para o leste se abre em um longo deserto nevado pontilhado de negro, até que, pouco a pouco, o cenário volta a ficar terroso. O mar vai se revelar novamente quando, do alto da Passagem Öxi – um atalho da Ring Road que faz valer o 4×4 – se avista o fiorde Berufjörður estendendo a ponta azulzíssima dos seus 35 quilômetros de extensão no meio de um desfiladeiro. É coisa de parar o carro, encostar e ficar admirando a paisagem o tempo que precisar. Na vida, certamente vai demorar para aparecer outra oportunidade de ver algo assim.

De volta ao sul, a estrada se espreme entre o mar e o paredão de montanhas que mal esconde a massa glacial de Vatnajökull – vira e mexe, porções de gelo “vazam” entre elas. Misturada a vulcões ativos, é a maior calota de gelo do mundo fora dos pólos, ocupando uma área de 8 mil quilômetros quadrados, 10% de toda a Islândia. É uma brutalidade que pode ser vista de perto por meros humanos em dois pontos: o pri-meiro em Jökulsárlón, um lago de icebergs que se desprendem da geleira que se mostra no horizonte e vão, em pedaços azul-turquesa, para o mar ou derreter na praia. Vale também gastar um tempo ali, ouvindo o gelo trincar. O outro ponto de acesso é o Skaftafell, parque nacional idílico que é, entre outras coisas, uma Disneylândia de trilhas entre geleiras e cachoeiras, com percursos que vão das mais curtas às longas, das mais fáceis às mais difíceis.

Um pouco adiante, outra praia negra de ficção científica, Dyrhólaey. Pode parar aí também para olhar até cansar, mas passe rápido, por via das dúvidas, pelos fumacentos e agitados vulcões Katla Eyjafjallajökull e Katla. Nas planíceis que se estendem para o mar, há sinais dos estragos que a combinação fogo e gelo pode produzir.

BOTA FAÍSCA NISSO

E então, entre tantas coisas que não parecem ser deste planeta, acontece algo que, de certo modo, realmente não é. No último dia, a noite se ilumina por trás das montanhas e as partículas solares, atraídas pelo magnetismo do pólo, promovem o último e maior dos espetáculos. A aurora boreal surge em um leque de ondas verdes bruxuleantes movendo-se como uma fantasmagoria fosforescente, que depois de uns 20 minutos, se dissolve em faixas brancas, claras, no topo do céu.

Não é exatamente uniforme como mostram as fotografias – o rastro sinuoso se deve em parte à velocidade baixa da câmera, necessária para captar a luminosidade difusa. Difícil de registrar, a aurora boreal é também difícil de descrever. Quando você bota as roupas de frio de volta nas malas, entende que as maravilhas, mesmo depois de vistas, continuam bem difíceis de explicar.

Viagem e Turismo, fevereiro de 2014
© Almir de Freitas