O quê?

what

A partir da semana que vem, o blog volta com seus melhores momentos, retomando a sequência de posts que foram publicados até a última parada de janeiro. Até a volta e feliz 2014 para todos!

Tuítes & retuítes

O micro-ondas canta em fá

O trecho abaixo é do livro Longe da Árvore – Pais, Filhos e a Busca da Identidade, de Andrew Solomon (Companhia das Letras, 1056 págs., R$ 79,50 na edição impressa, R$ 39,90 em e-book), mesmo autor do fabuloso O Demônio do Meio-Dia – Uma Anatomia da Depressão (Objetiva, 504 págs., R$ 67,90). No capítulo do livro dedicado aos filhos prodígios, trata principalmente das crianças com talentos musicais – e os eventuais problemas que podem surgir daí. Não tem nada a ver, mas lembrei desse vídeo de estética meio brega que exibe numa fita de Möbius (mundo, vasto mundo…) a genialidade do “crab canon”  de Bach. O que tem de comum aí, claro, é a música, a genialidade e a minha quase absoluta ignorância nesse mundo.

Para quem tem o ouvido absoluto, a identidade exata das notas é inconfundível. Um pesquisador mencionou uma mulher que tocou a escala do piano para a filha de três anos, dizendo o nome das notas; uma semana depois, o alarme do forno tocou e a menina perguntou: “O micro-ondas sempre canta em fá?”. Outra criança se queixava quando um de seus brinquedos, com a bateria fraca, tocava um quarto de tom mais baixo. (…) Um casal me contou que seu filho era capaz de identificar mais de cinquenta peças musicais aos dois anos de idade. Gritava “Mahler Quinta!” ou “Quinteto de Brahms!” Aos cinco anos, foi diagnosticado com autismo limítrofe.

Le Clézio, Spam e Monty Python

leclezio

A leitura frequente, às vezes, nos leva a associações improváveis — algumas são estranhas, mas que explicam um pouco as relações entre literatura, memória, linguagem e cultura pop. Começando a ler Refrão da Fome, do prêmio Nobel J. M. G. Le Clézio (Cosac Naify, 248 págs., no prelo), tema da crítica escrita por Heitor Ferraz para a BRAVO! deste mês, leio o seguinte trecho:

Eu como Spam americano. Muito tempo depois, guardo as latas abertas com uma chave para transformá-las em navios de guerra que pinto cuidadosamente de cinza. A pasta rosa que essas latas contêm, envolta em gelatina, meio com gosto de sabão, me enche de felicidade. Seu cheiro de carne fresca, a fina película de gordura que o patê deixa em minha língua, que me forra o fundo da garganta. Para os outros, mais tarde, para aqueles que não conheceram a fome, esse patê deve ser sinônimo de horror, de comida de pobre. Vinte e cinco anos depois reencontrei-o no México, em Belize, nas lojinhas de Chetumal, de Felipe Carrillo Puerto, de Orange Walk. Por lá ele se chama carne del diablo, carne do diabo. É o mesmo Spam, em sua lata azul ornada com uma imagem que mostra o patê em fatias sobre uma folha de alface.”

spamSpam, no caso, é a abreviação de SPiced hAM, “presunto temperado”, realmente uma junk food das mais pavorosas fabricada nos Estados Unidos pela Hormel décadas atrás e que, segundo vejo agora, voltou ao mercado. No Brasil, foi (é ainda?) comercializado pela Swift, também naquela lata, como diz o personagem de Le Clézio, que se abria girando uma chavinha – quem se lembra disso? Divertido o suficiente para ficar na memória de uma criança, como eu era, então.

swiftDaí que não foi nada difícil lembrar desse quadro do Monty Python, em que a repetição dessa coisa, empurrada para as pessoas, acabou dando origem à palavra que hoje usamos para designar aqueles e-mails que entopem nossas caixas de mensagens. Para quem ainda não viu, vale a pena dar uma espiada.

.

(Publicado em 15/10/2009)