Uma ideia, uns cochichos

O clipe da vez é, enfim, de um brasileiro, Noite Vazia (1964), de Walter Hugo Khouri. A história não é das mais originais: dois caras (de temperamentos diferentes) saem pela noite de São Paulo e topam com duas prostitutas (de temperamentos diferentes) e todo mundo sai meio frustrado. Mas tem lá seus momentos. Odete Lara e Norma Bengell estão bonitas demais.

Aqui, o filme completo.

A lei, ora, a lei…

No livro Essencial Franz Kafka (Penguin-Companhia, 304 págs., R$ 26), Modesto Carone comenta que o escritor tcheco se valeu mais de uma vez da famosa parábola Diante da Lei, que aparece em O Processo – aquele em que Josef K acorda, num dia qualquer, acusado de um crime que nunca descobrirá qual é. Escrita em 1915, a história foi destacada pelo autor do romance (na época inédito) para integrar o livro de contos Um Médico Rural (1919).

É essa a parábola, crucial, que serve de prólogo para a adaptação do romance para o cinema feita por Orson Welles em 1962, com Anthony [Norman Bates] Perkins, Jeanne Moreau e Romy Schneider no elenco. Na sequência, ela é ilustrada com a técnica pinscreen, em que pinos levantandos ou abaixados compõem as imagens num jogo de sombras tridimensional. Acompanhada pela voz tonitroante e dramática do próprio Welles, ao som do Adagio de Tomaso Albinoni, a cena fica bem sinistra.

A via-crúcis do proletariado

Se os filmes mais óbvios são inevitáveis nesta série de clipes pessoais, que sejam os melhores. Depois de O Sétimo Selo, é a vez do longo e difícil, mas visualmente poderoso, Andrei Rublev (1966), o segundo de Andrei Tarkovsky. Considerado por muitos o melhor filme “de arte” já feito, é uma “biografia inventada” do pintor de ícones russo do século 15, em que o xará cineasta inseriu uma reflexão pesada sobre a identidade e a sombria sina da Rússia. Claro que algumas passagens não agradaram nem um pouco os plutocratas do Kremlin em sua época.

Na cena, Tarkovsky transporta a paixão de Cristo para o gelo das estepes, enquanto Rublev discute em off com outro artista, mais velho (o cínico e desiludido Teófanes, o Grego), a culpa do povo na crucificação de Jesus: se ele também é mau ou se foi, na sua inocência, induzido ao ato pelos membros do Partido, ops, quer dizer, dos fariseus. Gosto do texto (falado em russo fica demais), mas gosto mais ainda da fotografia – das figuras humanas negras contra uma paisagem que dói de tão hostil, bonita e branca.

A íntegra do filme, com legendas em inglês, aqui e aqui. Em breve, tento subir no Youtube a versão com legendas em português, como prometi.

No Youtube

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Faz algumas semanas que venho publicando clipes pessoais de alguns filmes, muitos deles disponíveis na íntegra por aí na web, alguns em sites meio chatos, com legendas em inglês ou em espanhol. Para facilitar mais a vida de quem se interessar por eles, vou tentar subir todos no Youtube, quando possível já com a legenda em português. E, às vezes mais difícil, legendas que façam sentido. Não sei se, no matagal virtual dos direitos autorais, é possível fazer isso com todos. Mas vamos tentando: começo com o theco Trens Estreitamente Vigiados (1966), de Jirí Menzel, e o polonês Faca na Água (1962), este último o primeiro longa-metragem de Roman Polanski. Os filmes me renderam dois posts, este e este. Para acompanhar o progresso da coisa, basta se inscrever no meu canal lá.

Enquanto o isso, o blog entra num período mais lento de atualizações, que – espero – não deve durar muito. A vida em cores não anda fácil.

Esporro, ou o arquétipo da mulher zangada

O cipriota Michael Cacoyannis era um cineasta bastante teatral na sua mise-en-scène – coisa que dá para perceber claramente no clipe de Electra (1962). Foi essa a primeira das três incursões do diretor nas tragédias de Euripides – ele ainda filmaria os ótimos As Troianas (1971) e Iphigenia (1977), todos eles com Irene Papas, essa mulher cuja beleza dura, na sequência acima, a luz fica buscando. Aqui, ela se dirige ao cadáver de Egisto, o amante que sua mãe, Clitmenestra, usou para matar seu pai, o rei Agamenon. Quem deu cabo de Egisto foi Orestes, que dali a pouco (como se sabe) seria arrastado pela irmã Electra para uma vingança ainda mais terrível: o assassinato da própria mãe – essas coisas que só os gregos antigos tinham coragem de falar em público e que fariam a festa da psicanálise no futuro…

Nem é, tecnicamente, uma grande cena. Mas é bastante contundente na demonstração de que Electra é uma mulher muito (muito) zangada – uma coisa que parece crescer com a sonoridade da língua grega e com o branco dos olhos e dos dentes de Irene Papas. Curioso é que, no discurso, ela não se limita a vituperar contra o assassino de seu pai: aproveita para dar um esporro no homem que só quis se encostar, saber de vida boa. Sexo, comida e bebida. Pois é.

Há quem chame Euripides de o primeiro dramaturgo feminista da história. Século 5 a. C., senhores. Óbvio o exagero, é fato que ele se especializou em colocar as tragédias das mulheres no centro das suas tramas. São as troianas Hécuba, Cassandra e Andrômaca, a cólquida Medeia (outra bem doida) e as gregas gêmeas Helena e Clitmenestra, além de Ifigênia e outras menos cotadas. São quase sempre mulheres oprimidas – escravizadas, traídas, humilhadas, condenadas à morte por homens. Mas bom lembrar que, quando podem, são capazes de fazer muito estrago.

A íntegra do filme, com legendas em inglês, aqui.

Tuítes & retuítes

Fogo e água em Terrence Malick

O apanhado é do japonês kogonada, autor do Tumblr Missing Ozu, que já citei por aqui. E ele é o autor também de uma série de vídeos que andei tuitando – vídeos extremamente bem editados que, como o que segue acima, mostram recorrências temáticas ou técnicas em alguns cineastas. Há, por exemplo, o uso da perspectiva em Kubrick, os lugares de passagem em Ozu e as câmeras baixas de Tarantino.

A livraria à noite

Anos antes de ficar famoso com O Império dos Sentidos (1976) e Furyo (1983), Nagisa Oshima labutou em filmes menos polêmicos e com menos estrelas no elenco. Lançado em 1969, este Diário de um Ladrão de Shinjuku tem aquela esquisitice erótico-intelectual-de esquerda comum no cinema japonês da época. Essas são, por exemplo, características dos filmes do seu amigo Koji Wakamatsu, cujo Secrets Behind the Wall (1965) já apareceu por aqui. (Os dois diretores, por coincidência, morreram recentemente e em datas muito próximas: Wakamatsu em outubro de 2012, Oshima três meses depois)

Não é um filme fácil. O título evoca, óbvio, Diário de um Ladrão, de Jean Genet. É o francês quem abre o coro noturno de escritores na livraria onde um rapaz gosta de afanar livros – e onde ele conhece a garota de lábios bonitos da cena acima. A loja que serve de cenário, aliás, existe: é a Kinokuniya, uma megastore japonesa que acabaria espalhando filiais pelo mundo. O fundador dela, Moichi Tanabe, interpreta a si mesmo no filme. Até que ele passava bem como ator.