Passa-se o ponto

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Bom, enrolei o que pude antes de anunciar o inevitável: este Não me Culpem pelo Aspecto Sinistro está baixando as portas.

Primeiro, porque um raio dum pau no Banco de Dados SQL sumiu com as imagens de cinco anos de posts; reinseri-las na unha (por mais que tivesse chegado a cogitar tal coisa) está, naturalmente, fora de questão.

Segundo, porque o UOL, onde hospedei o blog no mesmo período, andou querendo aprontar comigo na mesma proporção do que gasto com eles mensalmente. Talvez eu migre o conteúdo para outro host, mas isso ainda não é certo.

Terceiro, porque – e esta é uma boa razão – será um estímulo para eu colaborar com mais frequência no Brasil Post, onde cometi uns poucos textos nos últimos meses. Além de novos posts, minha intenção é reviver por lá alguns dos melhores deste finado. A gente pode se acostumar com a morte, mas não lidamos bem com a ideia de que o que andamos despejando na nuvem, em nosso nome, possa vir a desaparecer, como se nem tivesse existido.

Então, antes que esta página se apague (brrr), convido os eventuais interessados a visitar meu secos & molhados lá no Brasil Post (clique aqui). Favoritem, curtam, sigam.

Nos vemos. Abraços e beijos a todos.

Quatro atrizes em 16 mm

Hoje (quase) todo mundo tem (relativa) familiaridade com as câmeras de TV, e, se não tranquilidade, ao menos conhecimento da linguagem e da, digamos, “etiqueta” exigida pela ocasião. Mas, claro, nem sempre foi assim. Mesmo gente que se dá muito bem na frente das câmeras já teve suas dificuldades priscas eras atrás, quando a TV era uma novidade e toda a nossa cultura televisiva — hoje imensa — estava por ser formada.

No acervo da TV Tupi, digitalizado pela Cinemateca Brasil (ao qual já fiz referência, aqui), essas dificuldades de origem são muitos evidentes. Os vídeos que reproduzo nesta página, todos de 1968, mostram grandes atrizes brasileiras bastante atrapalhadas durante entrevistas. A exceção é Cacilda Becker que, acima, fala de providências após o Comando de Caça aos Comunistas (CCC) invadir o teatro Galpão, em 18 de julho, e espancar atores e público da peça Roda Viva, peça de Chico Buarque encenada por Zé Celso.

Abaixo, Marília Pêra (que faria parte do elenco de Roda Viva naquele noite, aliás) toma o microfone do entrevistador, que o cede com uma sutil, mas clara, resistência. Antigamente, isso era algo que irritava muito o jornalista, hoje acho que nem acontece mais.

Abaixo, se repararmos bem, Fernanda Montenegro também segura o microfone, mas esse entrevistador está mais disposto a conservá-lo. Ela, muito segura hoje, também está evidentemente nervosa, incapaz de articular um discurso dos mais coerentes. Tanto neste quanto no último e quarto vídeo, o assunto é a greve que os atores fizeram em fevereiro de 1968 contra a censura. Os tempos começavam a ficar mais difíceis.

Aqui, Tônia Carrero mostra já possuir o estilo “gracinha” de falar. Seu discurso é articulado, mas parece ensaiado: ao “errar” (um erro que não entendi), ela se desconcerta um tanto, como se tivesse cometido uma falha em cena. Atrás dela está Odete Lara, que dá a impressão de estar se arrumando. Lá pelas tantas, a câmera busca Eva Todor que, ao lado de Dina Sfat, parece se divertir por estar sendo “filmada”.

No fim deste quarto video, temos, novamente, Cacilda Becker. E, mais uma vez, ela exibe uma segurança que parece inata. Devia mesmo ser uma força no palco. Quanto ao país,  bem. Sabemos que as coisas iam ficar mais feias.

(Publicado em 10/7/2009)

A lei, ora, a lei…

No livro Essencial Franz Kafka (Penguin-Companhia, 304 págs., R$ 26), Modesto Carone comenta que o escritor tcheco se valeu mais de uma vez da famosa parábola Diante da Lei, que aparece em O Processo – aquele em que Josef K acorda, num dia qualquer, acusado de um crime que nunca descobrirá qual é. Escrita em 1915, a história foi destacada pelo autor do romance (na época inédito) para integrar o livro de contos Um Médico Rural (1919).

É essa a parábola, crucial, que serve de prólogo para a adaptação do romance para o cinema feita por Orson Welles em 1962, com Anthony [Norman Bates] Perkins, Jeanne Moreau e Romy Schneider no elenco. Na sequência, ela é ilustrada com a técnica pinscreen, em que pinos levantandos ou abaixados compõem as imagens num jogo de sombras tridimensional. Acompanhada pela voz tonitroante e dramática do próprio Welles, ao som do Adagio de Tomaso Albinoni, a cena fica bem sinistra.

Esporro, ou o arquétipo da mulher zangada

O cipriota Michael Cacoyannis era um cineasta bastante teatral na sua mise-en-scène – coisa que dá para perceber claramente no clipe de Electra (1962). Foi essa a primeira das três incursões do diretor nas tragédias de Euripides – ele ainda filmaria os ótimos As Troianas (1971) e Iphigenia (1977), todos eles com Irene Papas, essa mulher cuja beleza dura, na sequência acima, a luz fica buscando. Aqui, ela se dirige ao cadáver de Egisto, o amante que sua mãe, Clitmenestra, usou para matar seu pai, o rei Agamenon. Quem deu cabo de Egisto foi Orestes, que dali a pouco (como se sabe) seria arrastado pela irmã Electra para uma vingança ainda mais terrível: o assassinato da própria mãe – essas coisas que só os gregos antigos tinham coragem de falar em público e que fariam a festa da psicanálise no futuro…

Nem é, tecnicamente, uma grande cena. Mas é bastante contundente na demonstração de que Electra é uma mulher muito (muito) zangada – uma coisa que parece crescer com a sonoridade da língua grega e com o branco dos olhos e dos dentes de Irene Papas. Curioso é que, no discurso, ela não se limita a vituperar contra o assassino de seu pai: aproveita para dar um esporro no homem que só quis se encostar, saber de vida boa. Sexo, comida e bebida. Pois é.

Há quem chame Euripides de o primeiro dramaturgo feminista da história. Século 5 a. C., senhores. Óbvio o exagero, é fato que ele se especializou em colocar as tragédias das mulheres no centro das suas tramas. São as troianas Hécuba, Cassandra e Andrômaca, a cólquida Medeia (outra bem doida) e as gregas gêmeas Helena e Clitmenestra, além de Ifigênia e outras menos cotadas. São quase sempre mulheres oprimidas – escravizadas, traídas, humilhadas, condenadas à morte por homens. Mas bom lembrar que, quando podem, são capazes de fazer muito estrago.

A íntegra do filme, com legendas em inglês, aqui.

Sinistros aspectos

Devagar, este blog está abrindo uma espécie de filial no Tumblr (clique aqui). Por ora, e para evitar bagunça, publicará apenas fotos de gente afins com os temas aqui tratados — fotos que (assim espero) estão longe de ser as mais óbvias, garimpadas em sua maioria em outros Tumblr. A galeria acima traz uma pequena amostra dessas imagens que não aparecem de cara no Google. Esta primeira, da Virginia Woolf, é um negócio do outro mundo.

Para ampliar a galeria, clique em “FS”. Para ver as identidades dos retratados, em “I”.

Livro de gelo, teatro de sombras

Receita engenhosa: combine um livro pop-up com projeções cinematográficas e você terá uma espécie de teatro de sombras em miniatura — ou seria um filme 3D ao vivo? The Ice Book, do casal Davy e Kristin McGuire, fez tanto sucesso que saiu em turnê mundo afora. E em 28 novembro próximo, a dupla estreia em Londres outra montagem com a mesma técnica, Howl’s Moving Castle.