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130 rostos de Harvey Pekar (1939-2010)

2010 July 12
by almirdefreitas

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Através da janela

2010 July 10
by almirdefreitas

Duas cenas com muito em comum: são dois monólogos, escritos por dois gênios, em duas adaptações espetaculares para o cinema. A primeira é de Quem Tem Medo de  Virginia Woolf?,  de Mike Nichols (1966), baseado na peça de Edward Albee; a segunda é de Os Vivos e Os Mortos, de John Huston (1987), adaptado do conto Os Dublinenses, de James Joyce. Os enquadramentos acabam, também, sendo muito semelhantes:, com os personagens olhando a escuridão e a desolação do mundo do lado de fora enquanto dizem textos tão bonitos quanto tristes. Tristes de trincar, para quem está com o antidepressivo em dia, com um Rivotril de reserva na gaveta.

Acima, a fala de Elizabeth Taylor, no filme de Nichols, segue com legendas. Já a de Donal McCann, abaixo, está no original, acompanhada do texto original de Joyce, que é um discurso indireto transformado em monólogo.

(…)

Gretta logo adormeceu.

Gabriel debruçou-se na cômoda e contemplou sem ressentimento os seus cabelos emaranhados, a boca entreaberta, ouvindo-lhe a profunda respiração. Então havia esse romance em sua vida: um homem morrera por ela. Quase já não o magoava pensar no pouco que ele, marido, representara em sua vida. Observava-a enquanto dormia, como se nunca houvessem vivido juntos. Seus olhos curiosos fitaram longamente o rosto e os cabelos, e ao pensar em como devia ser ela naquele tempo, no tempo da primeira juventude, uma estranha sincera piedade pela esposa invadiu-lhe a alma. Não ousava dizer, nem para si mesmo, que seu rosto já não era belo, embora soubesse que já não era o rosto pelo qual Michael Furey afrontara a morte.

Talvez não lhe tivesse contado toda a história. Seus olhos moveram-se para a cadeira sobre a qual ela atirara algumas roupas. Um cordel da anágua pendia no chão. Uma bota estava em pé, o cano dobrado para baixo; a outra tombada de lado. Pensou no tumulto que o agitara uma hora antes. De onde surgira aquilo? Da ceia, do tolo discurso, do vinho, da dança, da brincadeira quando se despediam no vestíbulo, do prazer de passear pelo cais sobre a neve? Pobre tia Júlia! Ela também logo seria uma sombra junto às sombras de Patrick Morkan e seu cavalo. Surpreendera esse lúgubre presságio em sua face, quando ela cantava. Muito em breve, talvez, estaria sentado no mesmo salão, vestido de preto, o chapéu de seda sobre os joelhos. Os reposteiros estariam cerrados e tia Kate, sentada a seu lado, chorando e assoando o nariz, contar-lhe-ia como tia Júlia morrera. Revolveria o cérebro à procura de palavras que pudessem consolá-la e só diria frases fúteis e vãs. Sim, isso logo iria acontecer.

O ar gélido do quarto fê-lo estremecer. Deslizou cautelosamente sob as cobertas e acomodou-se ao lado da esposa. Um por um, estavam todos se transformando em sombras. Seria melhor precipitar-se na morte no apogeu de uma paixão, do que extinguir e murchar lentamente com a velhice. Pensou como aquela mulher, adormecida a seu lado, ocultara por tantos anos a imagem do seu amado a afirmar-lhe que não queria viver.

Pranto generoso invadiu-lhe os olhos. Nunca se sentira assim por uma mulher, mas sabia que isto era amor. As lágrimas cresceram nos olhos e ele imaginou ver na penumbra do quarto um jovem parado sob uma árvore encharcada. Outras formas pairavam. Sua alma acercava-se da região habitada pela vasta legião dos mortos. Pressentia, mas não podia apreender suas existências vacilantes e incertas. Ele próprio dissolvia-se num mundo cinzento e incorpóreo. O mundo real, sólido, em que os mortos tinham vivido e edificado, desagregava-se.

Leves batidas fizeram-no voltar-se para a janela. A neve tornava a cair. Olhou sonolento os flocos prateados e negros, que despencavam obliquamente contra a luz do lampião. Era tempo de preparar a viagem para o oeste. Sim, os jornais estavam certos: a neve cobria toda a Irlanda. Caía em todas as partes da sombria planície central, nas montanhas sem árvores, tombando mansa sobre o Bog of Allen e, mais para o oeste, nas ondas escuras do cemitério abandonado onde jazia Michael Furey. Amontoava-se nas cruzes tortas e nas lápides, nas hastes do pequeno portão, nos espinhos estéreis. Sua alma desmaiava lentamente, enquanto ele ouvia a neve cair suave através do universo, cair brandamente – como se lhes descesse a hora final – sobre todos os vivos e todos os mortos.

(Tradução de Hamilton Trevisan)

Bichos no metrô

2010 July 8
by almirdefreitas

Em 1998, voltando do trabalho, o ilustrador Paul Middlewick estava esperando o metrô em Londres quando identificou as formas de um elefante no mapa das linhas. A partir daí, foi achando mais e mais animais ligando as linhas, estações e junções do bastante respeitável metrô londrino. A brincadeira se transformou num negócio, e Middlewick licenciou os desenhos para vários produtos, vendidos no site Animals on the Underground (aqui) e utilizados em campanhas institucionais da prefeitura. Acima, alguns exemplos.

Tentei identificar rapidamente algum bicho no paupérrimo metrô de São Paulo. O máximo que consegui (tudo bem que só gastei uns 5 minutos) foi algo parecido com uma cabeça de alce na parede – o que, em se tratando de um bicho morto, não deixa de ser meio deprimente. Além de ser muito mais ou menos, é, devo dizer, um desenho meio roubado, já que usei as linhas  ainda em construção e as de trem de superfície da região metropolitana. Não fosse assim, o metrô paulista renderia no máximo um louva-a-deus conceitual. E olhe lá.

O palavreado de James Joyce

2010 July 5
by almirdefreitas

Mais uma tira de Kate Beaton (aqui), desta vez aproveitando o conteúdo erótico das célebres carta de James Joyce à sua mulher, Nora Barnacle. Abaixo, a legendinha mais ou menos./1/ MISTÉRIOS DA HISTÓRIA /2/”Kate, você deveria bolar uma história em quadrinhos sobre as cartas de James Joyce a Nora Barnacle.” /3/ “Sem problema, deixa eu dar uma olhada nelas.” /4/ … /5/ “Eu escrevi uma carta para você…” “Fique longe de mim, James Joyce.”

Seleção de títulos

2010 July 2
by almirdefreitas

A Seleção Brasileira volta para casa – e a nossa vida começa a apontar para o norte do normal. Terrível blogar em dias de Copa do Mundo: a gente não está a fim de escrever e o mundo não está a fim de ler, torcendo para que os jogadores estejam a fim de alguma coisa. De qualquer modo, creio que eles terão uns dias de folga pela frente. Se fossem dados à leitura, poderiam ganhar da CBF livros com títulos personalizados – inspirados e inspiradores. Tem um para o Dunga também:

JÚLIO CÉSAR: O Buraco na Parede, Rubem Fonseca. Companhia das Letras.

GOMES: O Poste de Vapor, Ferenc Molnár. Cosac Naify.

DONI: Invisível, Paul Auster. Companhia das Letras.

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DANIEL ALVES: Fogo Pálido, Vladimir Nabokov. Companhia das Letras.

MAICON: O Inocente, Ian McEwan. Companhia das Letras.

GILBERTO MELO: Zero, Ignácio de Loyola Brandão. Global.

MICHEL BASTOS: Fogo Morto, José Lins do Rego. José Olympio.

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JUAN: O Senhor Vai Entender, Claudio Magris. Companhia das Letras

LÚCIO: O Bom Soldado, Ford Madox Ford.  Alfaguara.

LUISÃO: Andando na Sombra, Doris Lessing. Companhia das Letras.

THIAGO SILVA: O Cavaleiro Inexistente, Italo Calvino. Companhia das Letras.

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GILBERTO SILVA: O Náufrago, Thomas Bernhard. Companhia das Letras.

JOSUÉ: O Inútil de Cada Um, Mário Peixoto. 7Letras.

FELIPE MELO: Junta-Cadáveres, Juan Carlos Onetti. Planeta.

RAMIRES: É Difícil Encontrar um Homem Bom, Flannery O’Connor. ARX.

JÚLIO BAPTISTA: O Homem Sem Qualidades, Robert Musil. Nova Fronteira.

ELANO: Homem em Queda, Don DeLillo. Companhia das Letras.

KAKÁ: O Santo Sujo, Humberto Werneck. Cosac Naify.

KLÉBERSON: O Estrangeiro, Albert Camus. Record.

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ROBINHO: Diários de Bicicleta, David Byrne. Amarilys.

LUÍS FABIANO: Ilusões Perdidas, Honoré de Balzac. Estação Liberdade.

NILMAR: O Pequeno Príncipe, Antoine de Saint-Exupéry. Agir.

GRAFITE: Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenar. Nova Fronteira.

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DUNGA: Abraçado ao Meu Rancor, João Antônio. Cosac Naify.

Pergunta, respostas

2010 July 1
by almirdefreitas

6 March 2008

O escritor, jornalista e recém-especialista em enquentes Michel Laub perguntou a vários críticos e jornalistas qual livro brasileiro ainda está para ser escrito. A primeira leva de respostas foi publicada ontem em seu blog. Entre as sugestões, a deste que vos fala. Para ler, clique aqui.

A foto acima é de egp.

O amor de Verne e a ideia de Duchamp

2010 June 29
by almirdefreitas

O cartoon de José e Jesus, do post anterior, me fez lembrar de Kate Beaton, uma cartunista canadense que usa personagens históricos e literários numa série de webquadrinhos publicados no seu site, o Hark! A Vagrant. Abaixo, reproduzo duas das minhas tiras preferidas, acompanhas cada uma de uma legendinha aproximada, embora estejam num inglês bem fácil. Depois volto com mais.

/1/ “Querida, quem entregou essa carta? Cheira a perfume francês.” /2/ Querido sr. Poe, eu adoro o seu trabalho. “Hm” /3/ Você poderia colocar mais balões em suas histórias? Eu acho que deveríamos ser amigos. /4/ Eu também fiz um desenho de nós! Escreva-me de volta, com amor, Júlio. /5/ Irmãos /6/ …

/1/ CAFÉ-DA-MANHÃ DE MARCEL DUCHAMP / “Eu vou extrapolar nessa refeição.” /2/ “Você acha que isto é um ovo?” “Sim.” /3/ Bem, eu acho que isto é um ovo!” “Isso é um sabão.” /4/ “É um ovo! É um ovo e vou cozinhá-lo. Eu o chamei de ovo, então é isso que ele é.” “É um sabão!” /5/ “E agora eu vou comê-lo! Com meu sapato!” /6/ “Yeah, você quer um pouco? Eu tenho outro sapato.” “Isso é tão esquisito.”

Jesus, Maria, José

2010 June 25
by almirdefreitas

Não sou de ficar jogando pedra nos transeuntes, mas tem coisa que realmente é difícil de ignorar. Na livraria do aeroporto, resistindo à força da correnteza dos livros de autoajuda, administração, psicologia e assemelhados, topei com a dupla Jesus, o Maior Psicólogo que Já Existiu, de Mark W. Baker (Sextante, 192 págs., R$ 19,90), e Maria, a Maior Educadora da História, de Augusto Cury (Academia de Inteligência, 192 págs., R$ 19,90). Eu completaria com algo como José, o Marido Mais Compreensivo de Todos os Tempos, mas não sei se faria sucesso.

É incrível o que se escreve nesses livros. No de Jesus, vá lá, há suficiente material nos Evangelhos para adaptar os fatos à tese – eu mesmo posso pensar em algumas. Mas o que dizer desse sobre Maria, que ainda traz o subtítulo Dez Princípios que Maria Utilizou Para Educar o Menino Jesus? Numa página aberta aleatoriamente, leio:

“Maria não era impulsiva. Não reagia como a maioria das pessoas pelo pobre binômio da física: ação-reação. Como exímia observadora, ela dava atenção aos detalhes. Cada reação, cada atitude do menino Jesus era levada em alta conta. Não para prejudicar sua formação, queria educá-lo da maneira mais livre e segura possível.”

Como assim “não era impulsiva”, era “exímia observadora”, “dava atenção aos detalhes”, “levava em alta conta cada atitude do menino Jesus”?! Todo mundo sabe que as informações disponíveis sobre Maria estão entre as mais escassas dos Evangelhos – mais ainda no período da infância e juventude de Jesus, que simplesmente inexiste na Bíblia. Justamente o período em que ela teria aplicado seus “dez princípios”.

Dois alfabetos

2010 June 23
by almirdefreitas

x

A música do primeiro me ganhou.

Não brinca

2010 June 21
by almirdefreitas

Que revólver de espoleta, metralhadora e forte-apache que nada. Esses são fichinha perto de outros brinquedos  menos famosos, mas capazes de infartar os politicamente corretos. Alguns têm como álibi a época em que foram fabricados e comercializados, um tempo que não tinha essas frescuras. O laboratório de energia atômica, por exemplo, é um clássicos dos ano 50, e trazia elementos “radioativos” (mas inofensivos) de verdade. Não pega muito bem em tempos pós-Chernobyl, mas os colecionadores não estão nem aí e pagam pequenas fortunas no eBay pelos remanescentes.

Mas alguns são atuais. Além do Osama bin Lego acima, que provocou uma daquelas polêmicas intermináveis uns tempos atrás, há este inacreditável Path Cra 911 (11/9!). Fabricado na China, é um absurdo do começo ao fim – da ideia ao brinquedo em si, que se limita a uma perseguição em círculos de George W. Bush (em um tanque) a Bin Laden (num skate ou algo assim). Também são verdadeiros os bonecos Golliwogg, representando negros – outro clássico que se tornou item de colecionador, aliás, e sobre os quais Toni Morrison podia escrever um livro inteiro.

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