Will Self-description

Tá bom, o trocadilho foi fraco – até porque a descrição que vai abaixo é sobre outra coisa. É o começo do conto A Pedra de crack grande que nem o Ritz, parte do recém-lançado O Self Essencial: Cinco Contos e Uma Novela de Will Self (Alfaguara, 296 págs., R$ 42,90). A tradução é de Cássio de Arantes Filho.

Um edifício, sólido e imponente. Ao longo de sua base compacta estendem-se arcos elevados, formando uma barreira de colunata em seu couro rijo. No centro ficam portas altas e transparentes, flanqueadas por colunas. Há um frontão na seção intermediária da fachada e, perfilados ao longo dele, a intervalos de cinco metros, veem-se os rostos impassíveis de antigos deuses e deusas. Elevando-se acima deles seguem-se fileira após fileira de janelas, cada uma um olho luxuriante. O edifício todo é denso, retangular e branco, de um branco leitoso, translúcido.

Acima das portas centrais há um letreiro, as letras destacadas individualmente por fileiras de lâmpadas brancas. O letreiro diz: THE RITZ. Tembe olha para o hotel luxuoso, olha e depois atravessa a Piccadilly, driblando o tráfego, os táxis cantando seus pneus, as vans piando suas buzinas, os ônibus grasnando as deles. Ele vai até a entrada. Um porteiro posta-se imóvel junto a sua morosa incumbência giratória. Ele também é branco, branco leitoso, translúcido. Seu rosto, branco; suas mãos, brancas; seu casaco pesado cai quase até seus pés em pregas petrificadas de branco leitoso, translúcido.

Tembe estica a mão negra. Encosta a palma contra a coluna que flanqueia a porta. Admira o contraste de cor: o negro sumindo nos contornos amarelados dos dedos e depois no branco, no branco leitoso, translúcido. Ele cutuca a coluna, cutuca como um menino que estraga o reboco na parede da escola. Cutuca e arranca um pedacinho da superfície. O porteiro olha para além dele com olhos cegos, leitosos, translúcidos.

Tembe tira um cachimbo de vidro do bolso da jaqueta e enfia o pedacinho na ponta quebrada do tubo de Pyrex, como se fosse o fornilho. Pondo o cachimbo na calçada, na base da parede branca, de seu outro bolso tira um maçarico portátil. Ele acende o maçarico com um fósforo que risca na calça jeans. O maçarico brilha, com seu clarão amarelo; Tembe suaviza para uma língua de fogo azulada e sibilante. Apanha o cachimbo de crack e, enfiando a haste entre os lábios secos, começa a roçar o fornilho com a chama azulada.

Os fragmentos de crack no cachimbo se liquefazem em um Angel Falls miniatura de fumaça fluida que despenca no corpo globular do cachimbo, onde revolve e borbulha. Tembe traga e traga e traga, sentindo a onda crescer dentro dele, transbordar para fora dele, suprimindo a distinção. Ele traga e traga até se tornar apenas o ato de tragar, apenas a ação: uma biruta com um vendaval de fumaça de crack soprando nela.

“Tô fumando”, ele pensa, ou talvez apenas sinta. “Tô fumando uma pedra de crack grande que nem o Ritz.”

William Burroughs, armado e perigoso

Que era perigoso, todo mundo sabe: em 1951, o futuro autor de Junky Almoço Nu matou acidentalmente sua mulher, Joan Vollmer, com um tiro durante uma brincadeira de tiro ao alvo. Ele afirmaria, mais tarde, que a tragédia mudaria dramaticamente sua relação com a literatura. Mas armado ele nunca deixou de estar, como mostra a galeria de fotos acima.

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Hexabook

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Impresso na Alemanha no século 16, este livro devocional pertencente à Biblioteca Nacional da Suécia é uma engenhoca notável: com fechos independentes, ele reúne seis textos que podem ser lidos de maneira independente – basta saber onde abrir. Parece coisa de Guilherme de Baskerville.

[Via Colossal]

Laranja Mecânica para Nintendo

O povo do CineFix fez essa versão de Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick, como se fosse um game Nintendo de 8 bits. São reincidentes à beça: o canal desses caras no YouTube já conta com versões de O Grande Lebowski, O Iluminado, Pulp Fiction Blade Runner, entre outros. À guisa de defesa, podem argumentar que outros andaram fazendo dessas coisas antes, como já publicado aqui, por exemplo.

[Via Laughing Squid]

Você, você e você

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Em um dos ensaios de Medo, Reverência e Terror (Companhia das Letras, 200 págs., R$ 39,50), Carlo Ginzburg analisa o sucesso publicitário dos cartazes patrióticos do seu-país-precisa-de-você. Embora o do Tio Sam seja o mais conhecido entre nós, essa é uma história que começa na Inglaterra. O primeiro a apontar o dedo em perspectiva (boa sacada) foi o secretário da Guerra, Lorde Kitchener, conclamando os súditos da rainha a se alistarem nas fileiras da Primeira Guerra Mundial. O sucesso foi tal que a ideia acabou replicada várias vezes, por diferentes países e ideologias: a Rússia comunista (o dedo ali é de Trotsky), os Estados Unidos, a Alemanha e a Itália, todos naqueles mesmos anos turbulentos.