Elias Canetti is using Twitter

Comentei, em outra ocasião, que a vida de leituras pode levar a associações improváveis, às vezes com destinos curiosos. Agora, em parte motivado por Julian Barnes e Nabokov (aqui), em parte por Carpinejar (e aqui), chego a Sobre a Morte, de Elias Canetti (Estação Liberdade, 160 págs., R$ 35), recentemente lançado no Brasil.

Em sua grande maioria, o livro reúne pensamentos curtos que o escritor resolveu anotar, aleatoriamente, para “ajudar o homem a se defender da morte”. “Eu não posso deixar que essa guerra passe sem forjar no meu coração a arma que dominará a morte”, escreveu no dia 15 de fevereiro de 1942, numa Europa já tomada pela Segunda Guerra Mundial. E Canetti não parou mais, continuando nessa tarefa até sua própria morte, em 1994.

Sua ideia era, justamente, que tais frases permanecessem como fragmentos. Nada teria sido mais útil para o escritor, como todas essas intenções, do que a internet. Muitas frases, inclusive, parecem ter sido feitas à medida para o twitter – algo que pode ser visto nessa pequena amostra abaixo (clique na imagem para ir para a página).

Elias Canetti

O carrinho de bebê vazio

Old StrollerNo excelente Nada a Temer (Rocco, 256 págs., R$ 38), Julian Barnes cita a autobiografia de Vladimir Nabokov, A Pessoa em Questão (Companhia das Letras, 304 págs., fora de catálogo) para mencionar uma das fobias mais estranhas que eu já vi relatadas.  E faz isso num livro que se sustenta em um medo que, no fundo, é banalíssimo – o medo da morte.  É um ótimo recurso para dar um novo formato ao terror mais que conhecido. O que não é necessariamente agradável. Escreve Nabokov:

“O berço balança pairando sobre um abismo, e o senso comum nos diz que nossa experiência não passa de uma breve fenda de luz entre duas eternidades de trevas. Embora as duas sejam gêmeas idênticas, o homem, em geral, encara com mais calma o abismo pré-natal do que aquele a que se destina (a cerca de quatro mil e quinhentas pulsações cardíacas por hora). Conheço, porém, um jovem cronófobo que sentiu algo parecido com o pânico ao ver pela primeira vez filmes domésticos que haviam sido feitos algumas semanas antes do seu nascimento. Viu um mundo que praticamente não apresentava qualquer diferença – a mesma casa, as mesmas pessoas –, mas então percebeu que era um mundo onde ele não existia, e que ninguém deplorava a sua ausência. Viu de relance a sua mãe acenando de uma janela do segundo andar, e aquele gesto estranho o perturbou, como se fosse um adeus misterioso. Mas o que o deixou particularmente assustado foi a visão de um carrinho de bebê novo em folha na varanda, com o ar presunçoso e inoportuno de um ataúde; e também estava vazio, como se, naquele curso invertido dos acontecimentos, seus próprios ossos se tivessem desintegrado”.