Passa-se o ponto

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Bom, enrolei o que pude antes de anunciar o inevitável: este Não me Culpem pelo Aspecto Sinistro está baixando as portas.

Primeiro, porque um raio dum pau no Banco de Dados SQL sumiu com as imagens de cinco anos de posts; reinseri-las na unha (por mais que tivesse chegado a cogitar tal coisa) está, naturalmente, fora de questão.

Segundo, porque o UOL, onde hospedei o blog no mesmo período, andou querendo aprontar comigo na mesma proporção do que gasto com eles mensalmente. Talvez eu migre o conteúdo para outro host, mas isso ainda não é certo.

Terceiro, porque – e esta é uma boa razão – será um estímulo para eu colaborar com mais frequência no Brasil Post, onde cometi uns poucos textos nos últimos meses. Além de novos posts, minha intenção é reviver por lá alguns dos melhores deste finado. A gente pode se acostumar com a morte, mas não lidamos bem com a ideia de que o que andamos despejando na nuvem, em nosso nome, possa vir a desaparecer, como se nem tivesse existido.

Então, antes que esta página se apague (brrr), convido os eventuais interessados a visitar meu secos & molhados lá no Brasil Post (clique aqui). Favoritem, curtam, sigam.

Nos vemos. Abraços e beijos a todos.

Fora da Matrix

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O site britânico FatBrain, de compra e venda de livros usados, fez uma pesquisa para saber os motivos de quem prefere os físicos aos digitais. O resultado vai no infográfico acima. No topo, estão razões mais afetivas (falei disso aqui). Na sequência: é melhor para aprender, pode ser emprestado, tem design bacana, pode ser revendido, é legal para colecionar, é o único que dá para presentear, comprar em livraria não tem comparação, tem aquele (indefectível) cheirinho. E, por fim, é joia para se exibir por aí.

[Via Book Patrol]

Will Self-description

Tá bom, o trocadilho foi fraco – até porque a descrição que vai abaixo é sobre outra coisa. É o começo do conto A Pedra de crack grande que nem o Ritz, parte do recém-lançado O Self Essencial: Cinco Contos e Uma Novela de Will Self (Alfaguara, 296 págs., R$ 42,90). A tradução é de Cássio de Arantes Filho.

Um edifício, sólido e imponente. Ao longo de sua base compacta estendem-se arcos elevados, formando uma barreira de colunata em seu couro rijo. No centro ficam portas altas e transparentes, flanqueadas por colunas. Há um frontão na seção intermediária da fachada e, perfilados ao longo dele, a intervalos de cinco metros, veem-se os rostos impassíveis de antigos deuses e deusas. Elevando-se acima deles seguem-se fileira após fileira de janelas, cada uma um olho luxuriante. O edifício todo é denso, retangular e branco, de um branco leitoso, translúcido.

Acima das portas centrais há um letreiro, as letras destacadas individualmente por fileiras de lâmpadas brancas. O letreiro diz: THE RITZ. Tembe olha para o hotel luxuoso, olha e depois atravessa a Piccadilly, driblando o tráfego, os táxis cantando seus pneus, as vans piando suas buzinas, os ônibus grasnando as deles. Ele vai até a entrada. Um porteiro posta-se imóvel junto a sua morosa incumbência giratória. Ele também é branco, branco leitoso, translúcido. Seu rosto, branco; suas mãos, brancas; seu casaco pesado cai quase até seus pés em pregas petrificadas de branco leitoso, translúcido.

Tembe estica a mão negra. Encosta a palma contra a coluna que flanqueia a porta. Admira o contraste de cor: o negro sumindo nos contornos amarelados dos dedos e depois no branco, no branco leitoso, translúcido. Ele cutuca a coluna, cutuca como um menino que estraga o reboco na parede da escola. Cutuca e arranca um pedacinho da superfície. O porteiro olha para além dele com olhos cegos, leitosos, translúcidos.

Tembe tira um cachimbo de vidro do bolso da jaqueta e enfia o pedacinho na ponta quebrada do tubo de Pyrex, como se fosse o fornilho. Pondo o cachimbo na calçada, na base da parede branca, de seu outro bolso tira um maçarico portátil. Ele acende o maçarico com um fósforo que risca na calça jeans. O maçarico brilha, com seu clarão amarelo; Tembe suaviza para uma língua de fogo azulada e sibilante. Apanha o cachimbo de crack e, enfiando a haste entre os lábios secos, começa a roçar o fornilho com a chama azulada.

Os fragmentos de crack no cachimbo se liquefazem em um Angel Falls miniatura de fumaça fluida que despenca no corpo globular do cachimbo, onde revolve e borbulha. Tembe traga e traga e traga, sentindo a onda crescer dentro dele, transbordar para fora dele, suprimindo a distinção. Ele traga e traga até se tornar apenas o ato de tragar, apenas a ação: uma biruta com um vendaval de fumaça de crack soprando nela.

“Tô fumando”, ele pensa, ou talvez apenas sinta. “Tô fumando uma pedra de crack grande que nem o Ritz.”

William Burroughs, armado e perigoso

Que era perigoso, todo mundo sabe: em 1951, o futuro autor de Junky Almoço Nu matou acidentalmente sua mulher, Joan Vollmer, com um tiro durante uma brincadeira de tiro ao alvo. Ele afirmaria, mais tarde, que a tragédia mudaria dramaticamente sua relação com a literatura. Mas armado ele nunca deixou de estar, como mostra a galeria de fotos acima.

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